Jean-Michel Basquiat: um ícone do Neoexpressionismo

Embora sua vida tenha sido tragicamente interrompida, as pinturas cruas e radicais de Jean-Michel Basquiat causaram um impacto duradouro para o mundo da arte, especialmente para a história da street art e da pop art americana. Em passagem pelo Brasil, a exposição “Retrospectiva sobre Jean-Michel Basquiat” reúne 80 obras, incluindo gravuras, pinturas, desenhos e cerâmicas, apresentando a vida e o trabalho do homem que, em apenas oito anos, se tornou um ícone do século XX.

Untitled (Skull) (1981)

Untitled (Skull) (1981)

A infância e adolescência de Basquiat

Jean-Michel Basquiat nasceu no Brooklyn, Nova York, em 22 de dezembro de 1960. Filho de uma mãe porto-riquenha e de um pai haitiano. Essa combinação resultou na fluência de Basquiat em francês, espanhol e inglês, sendo que as primeiras leituras da poesia simbolista francesa viriam a influenciar seu trabalho posteriormente.

Os pais de Basquiat, particularmente sua mãe, encorajaram-no a mergulhar nas artes e na cultura desde cedo. Sua mãe, que era uma artista amadora, frequentemente o levava para visitar os diversos museus de arte de Nova Iorque, matriculando-o em um programa infantil no Museu de Arte do Brooklyn.

Os primeiros trabalhos artísticos de Basquiat foram desenhos de coisas que assistia na televisão, muitas vezes personagens de filmes de Alfred Hitchcock. Basquiat se sentava ao lado de sua mãe à noite e fazia sua arte enquanto ela trabalhava em seus próprios projetos.

Aos seis anos, ele foi atropelado por um carro e teve seu braço quebrado, passando por várias cirurgias. Enquanto se recuperava, sua mãe lhe comprou uma cópia do “Anatomia de Gray”, livro de medicina do século XIX. Esse livro teria uma influência forte em seu trabalho, particularmente na série The Dutch Settlers, que apresentava imagens de partes do corpo humano sobrepostas com texto.

The Dutch Setllers

The Dutch Setllers

Quando Basquiat estava com oito anos de idade, seus pais se separaram.  Ele e suas irmãs foram morar com o pai, ficando no Brooklyn até 1974 e depois mudaram-se para Porto Rico para uma breve estadia, antes de voltar para Nova York em 1976. Nesta época, a mãe de Basquiat estava internada em uma instituição psiquiátrica, devido à instabilidades mentais. Alegando abuso físico e emocional, Basquiat acabou fugindo de casa aos 17 anos, passando a morar nas ruas, com amigos ou em prédios abandonados.

O movimento SAMO e o início da carreira

Em 1976 Basquiat iniciou uma colaboração de cinco anos com seu amigo Al Diaz. Os dois começaram a desenhar graffitis em prédios no sul de Manhattan, assinando as obras com o pseudônimo SAMO (significa “Same Old Shit”). Esse definição provinha da visão que os dois jovens tinham, na qual tudo assumia uma tonalidade cinzenta na mistura das estruturas corporativas com o meio social artístico predominantemente branco em que desejavam entrar. Quando a parceria se desfez em 1979, Basquiat começou a grafitar “SAMO está morto” nos bairros do SoHo.

 

Samo is Dead

Samo is dead

Foi em 1980, com 20 anos, que Basquiat começou a ganhar notoriedade nos círculos artísticos de Nova York. Este ano marcou a primeira exibição pública de Basquiat, que contou com peças de mais de 200 artistas diferentes e foi patrocinada por duas empresas. Neste mesmo ano ele vendeu suas primeiras pinturas e começou a trabalhar em período integral como artista.

Basquiat e Andy Warhol

O período mais criativo da curta vida e da carreira impactante de Basquiat situa-se entre 1982-1985 coincidindo com a amizade com Andy Warhol.  Em novembro de 1983, Basquiat e Warhol começaram a colaborar em uma série de pinturas. Uma das obras mais conhecidas da dupla foi a “Olympic Rings” (1985), na qual, Basquiat respondeu às formas inicialmente concebidas por Warhol com o registro abstrato e estilizado, característico de suas obras.

 

“Olympic Rings” (1985), de Jean-Michel Basquiat e Andy Warhol

Olympic Rings de Jean-Michel Basquiat e Andy Warhol

 

Untitled (History of the Black People) (1983)

Untitled (History of the Black People) (1983)

Legado

Foi no final de 1984 que os amigos de Basquiat começaram a se preocupar com seu excessivo uso de drogas. Dizia-se que ele era constantemente paranóico e despreocupado com as realidades cotidianas, incluindo sua aparência. O uso de drogas mais pesadas também coincidiu com sua paranóia crescente sobre seu próprio lugar no mundo da arte e sua preocupação em se tornar um artista que desaparecesse cedo ou que sua arte fosse roubada.

Este vício aumentou consideravelmente após a morte de Andy Warhol, no ano de 1987 e em 12 agosto de 1988 ele morreu após uma overdose no seu estúdio de Manhattan, encerrando uma vida breve, mas altamente influente, aos 27 anos de idade.

Em sua curta vida, Jean-Michel Basquiat, no entanto, veio a desempenhar um papel importante e histórico na ascensão do Punk Art e do Neo-Expressionismo no cenário artístico de Nova York. Enquanto a maior parte do público se apegou ao exotismo superficial de seu trabalho e foi cativado por sua celebridade instantânea, sua arte, freqüentemente descrita imprecisamente como “ingênua”, possuía conexões importantes e teve precursores expressivos, como Jean Dubuffet e Cy. Twombly.

Basquiat tinha muito medo da realidade racial desfavorável nos Estados Unidos. Esse sentimento freqüentemente se apresentava em suas obras,  que eram tipicamente sociais e politicamente carregadas. Suas pinturas eram altamente simbólicas por natureza e muitas vezes focalizavam no que ele via como dicotomias intrínsecas, como os ricos versus os pobre ou integração versus segregação. Os trabalhos de Basquiat incluíam tipicamente palavras ou frases curtas e, de fato algumas peças consistiam apenas da palavra escrita.

Um produto dos anos 1980 seu trabalho continuam a servir para muitos observadores como uma metáfora para os perigos do excesso artístico e social. Sua arte continua sendo uma constante fonte de inspiração para artistas contemporâneos.

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