Menos é mais: Conheça a arquitetura Moderna Brasileira

A notória frase de Ludwig Mies van der Rohe, “Less is more” encaixa-se perfeitamente na arquitetura moderna brasileira, um movimento marcado por curvas e por construções repletas de leveza. Descubra um pouco mais sobre essa parte da história da arquitetura abaixo.

O começo e o auge

Este movimento teve início na década de 1920, logo após a Semana da Arte Moderna de 1922, teve seu auge durante a construção de Brasília, e perdurou até à meados de 1964 quando ocorreu o golpe militar, e os artistas de todas as classes passaram a sofrer repressão criativa governamental. Maria da Graça Santos acrescenta que as raízes desse movimento foram provenientes da: “Escola Carioca, a partir do pensamento de Lúcio Costa – que na década de 20 era defensor da arquitetura neocolonial e alguns anos depois se tornou o principal mentor da arquitetura moderna brasileira.

De modo geral, a arquitetura moderna brasileira foi fortemente caracterizada pelos cinco pontos propostos por Le Corbusier, em 1926, aplicados pela primeira vez em 1928, na obra Villa Savoye, reconhecida mundialmente como referência para o movimento.

VIla Savoye

Villa Savoye | Fonte: Spotting history

De acordo com arquiteto Bruno Perenha, as principais características criadas por Le Corbusier, e, posteriormente aplicadas aqui no Brasil são:

  1. Pilotis: Trata-se de um conjunto de pilares que eleva a construção do chão, e promove uma ligação do interno com o externo. Assim, diferente de uma caixa de concreto completamente vedada por paredes, quem está dentro de um edifício moderno tem a possibilidade de se conectar com o externo;
  2. Planta livre: Resultado direto do primeiro ponto, pois na nova arquitetura a parede não tem mais função estrutural. Bruno Perenha esclarece ainda que: “Os edifícios modernistas são como uma espécie de esqueleto, onde você tem pilares, pilotis, vigas e lajes” ou seja, se você destruir toda a parte de baixo, eliminando a planta, a estrutura permanecerá de pé pois é independente da vedação das paredes.
  3. Terraço jardim: Trata-se da utilização da parte superior das obras com fins decorativos. Isso só foi possível graças aos avanços da qualidade do concreto, por meio da tecnologia esse material foi fortificado e, atualmente permite a exploração das lajes. Além de lindos são super ecológicos, pois a vegetação pode ajudar a controlar as altas temperaturas no verão, e deixar a obra menos fria no inverno.
  4. Fachada livre: Resultado direto da Planta Livre, na arquitetura moderna não são mais necessárias paredes para estruturar um edifício, por isso a fachada fica disponível para que o arquiteto trabalhe como desejar. Foi esse advento que possibilitou a criação de fachadas diferenciadas, que podem ser vazadas, totalmente envidraçada, ou como a imaginação do arquiteto quiser.
  5. Janela em fita: Esse último ponto diz respeito à ampliação das janelas, são grandes aberturas que cortam toda a extensão do edifício. Elas melhoram a iluminação dos locais e a vista externa para quem está dentro. Le Corbusier acreditava que essas janelas ajudavam a reduzir a ornamentação desnecessárias dos edifícios.

A arquitetura moderna brasileira foi importante porque além de propor novas formas e conceitos para os prédios e construções, trouxe ainda uma hibridação entre as artes. Como explica Igor Fracalossi:Estando as origens da arquitetura moderna brasileira no movimento artístico nacional, foi possível a maturação de uma arquitetura intrinsecamente vinculada à arte, e, por vezes, como obra de arte. Arquitetura, paisagismo, pintura, escultura, música, literatura, chegando ao absurdo do cálculo estrutural, solidificam-se num todo interdependente, no qual é impossível falar de um sem se lembrar dos demais.

Além das hibridações na arte, esse movimento também representou para a arquitetura nacional a emancipação do movimento europeu. Por meio da ruptura com o convencional, os arquitetos brasileiros puderam desenhar com mais liberdade. Consequentemente, foram criticados por não seguirem o eurocentrismo, mas continuaram atuando mesmo assim, evidenciando sua marca em seus traços únicos, o que deixou um grande legado para o Brasil. Por óbvio o movimento foi reflexo do trabalho de diversos arquitetos, mas foi sem dúvidas o pioneirismo curvilíneo de Oscar Niemeyer quem mais recebeu destaque. E é sobre esse, e outros arquitetos que trataremos a seguir.

Quem foram os três principais arquitetos?

Ora, essa é uma pergunta de resposta fácil: Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Vilanova Artigas, mas muito além de apenas mostrar fotos e resumir quem foram, gostaríamos de nos aprofundar sobre como eles pensavam. Por isso, recorremos ao documentário Arquitetura Moderna no Brasil, realizado pelo IAB e a Fundação Bienal de São Paulo, em 1985. No qual os arquitetos e o paisagista Burle Marx foram entrevistados à respeito do surgimento e apogeu de arquitetura moderna. Coletamos os depoimentos mais interessantes e reunimos para você. A respeito da construção do complexo da Pampulha, Oscar Niemeyer alegou que: “O que me interessava era a curva diferente. […] Quando eu fiz a igreja, não tinha nada de novidade especial, mas de qualquer maneira, era diferente naquela época. tão diferente que ela ficou fechada cinco anos. De modo que, o que eu acho importante na arquitetura, é um caminho assim, que crie surpresa, que crie discussão, um projeto que não se repita coisa feita anteriormente. E nesse sentido, eu sempre trabalhei. Eu achava que todos os arquitetos, não tinham que copiar apenas esses cubículos de vidro, que caracterizavam a arquitetura no momento, eles tinham que procurar outro caminho.”

Embora tenha sido fortemente criticado no começo, Oscar alcançou seu objetivo de receber destaque trabalhando de forma diferente, tão diferente que chamou atenção do presidente vigente. Durante a euforia envolvida na construção de uma nação independente, Juscelino Kubitscheck corporificou o espírito de mudança brasileiro, e convidou Niemeyer a participar do processo de construção da nova capital do Brasil. À respeito disto, Niemeyer pontuou que: “Eu estava fazendo uma capital para durar a vida inteira, que foi concebida na escala definitiva, do Brasil definitivo. E foi com escala generosa e ampla, que eu vi logo um problema: como conciliar essa escala com a escola residencial? Que é uma intenção completamente diferente, a escala de brasileira com a escala residencial. Então me ocorreu uma ideia, de criar essas quadras grandes, cercadas num enquadramento, numa moldura vegetal, verde, arborizada.”

O legado de Brasília se tornou referência mundial da arquitetura moderna brasileira. Contudo, em 1964 ocorreu no Brasil o Golpe Militar, que sufocou o movimento criativo, por meio da intervenção do exército ocorreram fortes repressões as correntes de pensamentos nas universidades. Niemeyer pontua que “o pavor do comunismo”, acabou fazendo com que os arquitetos mais famosos fossem afastados das obras estatais, interrompendo uma das correntes mais criativas que o Brasil já teve.

À respeito do apogeu Lúcio Costa esclareceu no documentário que: “O movimento de 64 respeitou o movimento de arquitetura moderna e resolveu dar seguimento. Mas nas universidades houve uma forte repressão a liberdade de pensamento.

Contudo, Burle Marx, criador do calçadão de Ipanema, discorda dizendo que: “Todo esse período ditatorial é uma imposição e nós nunca podemos falar claramente sobre todos os problemas que nos afligem. E naquela época (antes da ditadura), a gente falava claramente, vamos fazer isso por causa disso, isso e isso.

Vilanova Artigas completa o raciocínio de Marx, alegando que: “Ficou muito difícil quando a censura atingiu todos os aspectos.” sem ter quem pudesse dar continuidade a projetos inusitados o movimento foi sufocado e pereceu, mas deixou um grande legado.

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