A história do East Side Gallery

Embora a difusão do grafite como arte ainda esteja em processo de aceitação no Brasil, essa forma de expressão está presente no mundo há muitos anos, podendo ser encontrado nos lugares mais inusitados, que variam desde o topo de prédios até galerias de esgoto.

Sem dúvidas, o muro de Berlim é um desses locais onde a décadas atrás ninguém pensaria em ver um risco sequer. Tratavam-se de duas grandes colunas de muro construídas após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, criadas para separar a Alemanha Ocidental (capitalista) e da Alemanha Oriental (socialista).

A maior parte que restou da antiga construção de Berlim, que perdurou durante infortúnios 28 anos, deu lugar a belíssima East Side Gallery a qual conserva a maior seção ainda de pé do obsoleto Muro de Berlim.

Onde fica a East Side Gallery?

Localizada às margens do rio Spree seu tamanho total é de 1,3 km. É claro que, ao longo da orla é possível encontrar também outros pedaços do muro, mas nenhum trecho atinge a mesma extensão da galeria, por isso ela recebe mais de 3 milhões de visitantes por ano.

O protesto por trás da criação da East Side Gallery

Inaugurada em fevereiro de 1990, a galeria permitiu aos artistas alemães se apropriarem de um local antes intocável, podendo finalmente protestar e manifestar todos os sentimentos reprimidos por quase três décadas. O muro divisor serviu como tela para eles, criando um ambiente repleto de expressões artísticas únicas.

A origem do nome

Para os alemães a galeria é conhecida como Kunst Meile (“the art mile”, em alemão), mas o local ficou mundialmente conhecido como East Side Gallery após ser decorada na face leste com 106 grafites e pinturas. A maioria dos trabalhos expostos são referências diretas à época.

O acervo 

O novo contexto político e a arte ocuparam o lugar das paredes opressoras, permitindo o retorno da liberdade de expressão. Sem dúvidas uma das imagens que ficou marcada na cabeça dos artistas logo após a queda foram as centenas de carros Trabants.

O automóvel era uma espécie de fusquinha, muito comum no lado comunista, que finalmente tiveram permissão para circular livremente nas ruas ao redor do setor capitalista. Não é atoa que uma das imagens mais famosas seja o emblemático Trabant rompendo o Muro de Berlim.

trabant-car-east-side-gallery

Os cidadãos da antiga RDA estavam ansiosas para reencontrar os familiares do outro lado do muro e poderem finalmente experimentar o estilo de vida capitalista. A sensação de liberdade, respeito e fraternidade era muito grande, tanto que a obra mais conhecida da galeria é justamente O beijo fraternal.

O beijo entre o líder soviético Leonid Brezhnev e o presidente socialista alemão Erich Honecker realmente ocorreu, 2 anos após a queda do muro. A imagem também recebeu uma frase em alemão que em português significa: “Deus me ajude a sobreviver a esse amor”.

o beijo east side gallery

 

Os artistas mais ousados tocaram na ferida e falaram sobre a complexidade envolvida na reunificação alemã, por muito tempo os comunistas foram vistos como inferiores intelectualmente, contudo muitos se esquecem que essas pessoas estavam presos nesse regime, sem opção de fugir. César Olhagaray é um desses artistas, morador do lado Oriental que representou os moradores do outro lado do muro como cabeças quadradas, por seu tratamento intransigente com os comunistas.

cabeças quadradas east side gallery

Outra obra que merece destaque é “La Buerlinica”, que carregas as cores da bandeira alemã e eterniza o momento dramático vivido pela divisão do muro, uma clara homenagem a “La Guernica” de Picasso, que representa a dor sofrida durante a guerra espanhola.  

Ironicamente, um dos severos postos de controle de fronteira deu lugar a uma lojinha turística. Segundo Fernanda Castelo Branco, autora do blog Vontade de Viajar nesse local você pode levar um passaporte fora da validade e receber o carimbo da Alemanha Oriental.

A restauração 

Por se tratar de um trabalho a céu aberto, as obras da galeria estão sujeitas ao sol, chuva, e outros fatores naturais, o que acabou danificando a maioria das obras após a longa exposição.

Além do vandalismo, algumas pessoas picharam o muro, outras quebravam para levar pedacinhos para casa. O que não é necessário, pois as próprias lojinhas ao redor vendem caixas com pedaços do muro.

Com o intuito de preservá-lo, em 2009 uma ONG alemã deu início ao processo de restauração, o qual foi tema de grande polêmica. Alguns dos artistas que pintaram o muro em 1990 não concordavam com a ideia de estranhos decidirem retocar o seu trabalho.

Primeiro porque destrói a originalidade da obra, segundo porque a arte urbana é criada justamente para ser transitória, e perde o sentido sem o contexto histórico em que foi feita.  

A discussão ao menos serviu para abrir pauta sobre os direitos autorais dos grafites, afinal muitos merchandisings e souvenirs foram vendidos (utilizando sem autorização) a arte ali exposta.

O muro que foi testemunha de uma parte tão triste da história alemã abriu precedentes para outras expressões de arte, transformando Berlim em uma das principais capitais do mundiais do street art.

E você, já foi a galeria ou tem vontade de visitá-la? Deixe a resposta aqui embaixo nos comentários.

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